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Antônia e Theo, por Washington Olivetto
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Antônia e Theo, por Washington Olivetto

(BRASIL) – Desde o dia 8 de julho de 2004, minha mulher, Patrícia, e eu aderimos oficialmente ao regime Antônia e Theo. Esses são os nomes do casal de gêmeos que tivemos naquela data e que nos proporcionam, além de muitas outras alegrias, silhuetas sempre em forma.


Washington Olivetto caricaturizado por el estudio Open The Door.

 
 

A insustentável leveza dos seres

Por Washington Olivetto, desde São Paulo (*)

Desde o dia 8 de julho de 2004, minha mulher, Patrícia, e eu aderimos oficialmente ao regime Antônia e Theo. Esses são os nomes do casal de gêmeos que tivemos naquela data e que nos proporcionam, além de muitas outras alegrias, silhuetas sempre em forma.

O início da adesão a esse regime começou, na verdade, 9 meses antes, em novembro de 2003. Só que, entre novembro de 2003 e julho de 2004, Patrícia, ao invés de emagrecer, engordou. Exatos 12 quilos.

Já eu, durante esse período, não engordei coisa alguma, fato que, diga-se de passagem, não tem nada de surpreendente. Homens normalmente não engordam durante a gravidez de suas mulheres.

Patrícia perdeu os 12 quilos logo após o parto, eu me mantive no peso em que estava, e nós dois, graças ao regime Antônia e Theo, começamos o processo de aprimoramento.

Inicialmente, e mesmo com a presença das competentes babás e da sempre prestimosa vovó (também Antonia), nós dois, que éramos freqüentadores assíduos de restaurantes, simplesmente resolvemos eliminar o hábito de jantar fora, coisa que, sem dúvida nenhuma, emagrece — ou, no mínimo, não engorda.

Deixamos também de assaltar a geladeira de madrugada, já que, nos raros momentos em que os gêmeos se mantinham em silêncio, tentávamos dormir.

Eliminamos também as viagens a sós, coisa que se mantém até os dias de hoje.

 

Washington y Patricia con Antônia y Theo.

Nestes quase 5 anos, carregamos os dois pra tudo quanto foi canto. Aliás, a palavra “carregamos” não é uma metáfora. É no colo mesmo, exercício que também ajuda a manter a forma, com o detalhe de ser muito similar ao recomendado pelas melhores academias: a cada dia, você aumenta um pouco o peso que carrega, num processo natural e progressivo. Começamos com três quilos e pouco e hoje já estamos na casa dos vinte quilos.

Com o passar do tempo, além do levantamento de peso, foram acrescentadas as corridas (sempre atrás dos dois), outro exercício considerado perfeito para manter a forma desde as primeiras descobertas de Kenneth Cooper.

A partir do segundo ano, no quarto trimestre de 2005, o regime se sofisticou. Assim que os dois saíram da fase do leite materno e das papinhas caseiras e entraram na fase da comida de gente, voltamos a freqüentar restaurantes, só que sempre com a presença dos dois, o que evita naturalmente que tanto eu quanto Patrícia cometamos exageros.

Preocupados em servi-los e educá-los, muitas vezes não temos tempo sequer de tocar nos nossos pratos, o que, sem dúvida, não engorda. Além disso, também graças aos dois, agora jantamos fora sempre mais cedo, o que favorece uma digestão correta.

Já Antônia e Theo, obviamente assistidos pelos melhores pediatras, com peso e altura controlados regularmente, roupas confortáveis e bem cortadas e viagens criteriosamente planejadas, estão se transformando em verdadeiros gourmets e globetrotters.

Cidadãos do mundo, são apreciadores tanto da alta quanto da baixa gastronomia, desde que os pratos sejam preparados com esmero, criatividade e produtos de qualidade.

Coxinhas do Frangó, couverts do Antiquarius, feijoadas do Bar da Dona Onça, sashimis do Kinoshita, pizzas do Quintal do Bráz, pães de queijo e picanhas do Rodeio são alguns dos itens que fazem parte do cardápio paulistano dos dois.

Caldinho de feijão com torresmo do Bracarense, espaguete ao vôngole do Margutta, empadinhas do Camarões, lagostas do Satyricon, sanduíches do Cervantes e carnes do Porcão são veementemente reivindicados pela dupla quando vamos ao Rio de Janeiro.

Theo, vez por outra, comenta —saudoso e com perfeita pronúncia em francês— a bouillabaisse que comeu com a mãe (na verdade, tomou da mãe) no restaurante Tétou, em Golfe-Juan, em agosto de 2008.

Já Antônia diz preferir macarrão com molho branco em vez de vermelho, particularmente se for igual àquele com azeite trufado que ela literalmente garfou de mim no restaurante Michelangelo, na Velha Antibes, no mesmo agosto passado.

Os dois não rejeitam um cachorro-quente (especialmente os dos carrinhos de rua de Nova York), encaram com naturalidade um sundae inteiro do Serendipity e consideram o Peter Luger melhor que o Smith & Wollensky.

Enquanto isso, a mãe, dedicada e prestimosa, sempre abre mão da sobremesa em qualquer restaurante porque “os dois, agora que já comeram, querem ir embora”. Enquanto o pai abre mão da sua Fernet Branca Menta depois do café porque, repete a mãe, “os dois, agora que já comeram, querem ir embora”.

Como todos sabem, sobremesas e Fernets Brancas engordam, portanto, graças a eles e aos seus “quero ir embora”, estamos em ótima forma.

Obviamente, esses casos de “agora que já comeram, querem ir embora” invariavelmente acontecem depois de os dois já terem saboreado as suas sobremesas, na maioria das vezes compostas por mousse de chocolate, creme de papaia ou sorvetes diversos.

Theo só não pede depois da sobremesa um Nespresso e uma Fernet Branca Menta porque ainda não toma café e digestivos depois do jantar, mas tenho certeza de que, assim que criar esse hábito, certamente vai preferir algo mais elaborado do que uma prosaica Fernet Branca: talvez um Sauternes de Bordeaux ou um bom Armagnac.

Como você deve estar percebendo, o regime Antônia e Theo é extremamente eficiente e não emagrece apenas o corpo. Emagrece também a conta bancária.

Desde que aderimos a ele, as despesas tanto de passagens aéreas quanto de hotéis e, principalmente, de restaurantes no mínimo duplicaram (incluindo babás e amiguinhos, triplicaram), e isso porque os dois ainda não começaram com os vinhos, coisa que, pela lógica, com certeza vai acontecer um dia.

Por outro lado, a economia com refrigerantes na minha casa tem sido enorme: para dar bom exemplo aos dois, Patrícia eliminou da sua vida as Coca-Colas e guaranás de que tanto gostava. Agora, só bebe sucos naturais e água com gás.

Outra economia que vai acontecer também lá em casa, e em breve, será com charutos. Antônia me pediu para parar com o meu Davidoff depois do jantar. Outros amigos queridos e de enorme bom senso, como o Boni, já tinham me sugerido o mesmo, mas eu não dei ouvidos. Agora, como é uma ordem da Antônia, que manda em mim mais do que o Boni mandava na TV Globo, eu, obviamente, vou obedecer.

Apesar de sacrificado e dispendioso, o regime Antônia e Theo é altamente recomendável. Particularmente para uma mulher como Patrícia, que optou por ter filhos depois de totalmente realizada profissionalmente (quando teve a gravidez confirmada, vendeu sua participação na Conspiração Filmes para os sócios), e para um sujeito como eu, pai novamente depois dos 50 anos.

Diga-se de passagem, o pai com mais de 50 anos é uma verdadeira Disney World: responsável como pai, cúmplice como tio e permissivo como avô, faz a alegria de qualquer criança.

Fora isso, a paternidade depois dos 50 anos, além de manter o corpo são, mantém também a mente sã: eu, que, desde os 18 anos de idade, sempre trabalhei muito, e teoricamente realizei tudo que poderia realizar na minha profissão, estou cada vez mais motivado a trabalhar mais e a realizar mais. Preciso fazer coisas novas para mostrar aos dois e ganhar dinheiro para o futuro deles.

Já Patrícia, plenamente realizada pessoal e profissionalmente, também cogita voltar a trabalhar. Não acha bom a Antônia crescer sem o exemplo de uma mãe que trabalha.

A princípio, fui contra, mas, como ela me garantiu que idealiza apenas produzir alguns filmes de vez em quando, virei a favor. Seu raciocínio do exemplo feminino me encantou e me convenceu.

Em resumo, do ponto de vista estético e moral, o regime Antônia e Theo pode ser considerado perfeito. E que fique bem claro: não é um privilégio meu e da minha mulher.

É praticado em muitas outras famílias, com nomes diferentes, pratos diferentes, viagens diferentes, circunstâncias diferentes, mas com a mesma filosofia e os mesmos méritos. E também com o mesmo grave defeito: com o passar do tempo, o regime torna-se obsoleto e superado e desaparece.

As Antônias e os Theos de todo o planeta crescem, ganham outros interesses, começam a se preocupar com eles mesmos, e os pais, beneficiários do regime nos seus primeiros anos, acabam, com toda a lógica e justiça, relegados a um segundo plano. É a vida que segue.

Não tenho dúvidas de que, em breve, tanto a Antônia quanto o Theo vão ter suas preocupações, angústias e frustrações. Vão se preocupar com o peso do corpo, o peso da escola, o peso do trabalho, o peso da vida. Torço para que os dois tenham a mesma sorte que o pai e encontrem alguém para carregar junto todos esses pesos.

A tarefa do Theo, certamente, será mais difícil. Encontrar uma mulher bonita, inteligente, elegante, que se mantém sempre em forma e sem paranóias —como a mãe dele— não é nada fácil.

Quanto à tarefa da Antônia, essa deve ser um pouquinho menos complicada: sujeitos melhores e mais em forma do que eu já existem — e são muitos. E, como os homens estão progredindo física e mentalmente, devem se multiplicar nos próximos anos.

 
 

(*) WASHINGTON OLIVETTO. (São Paulo, 29 de setembro de 1952). Publicitário brasileiro, responsável por algumas das campanhas mais marcantes da propaganda nacional.

Redator, começou a carreira na Harding-Jiménez. Depois passaria a trabalhar na Lince e na DPZ, em 1974, onde ganharia o primeiro leão de ouro da publicidade nacional no Festival de Cannes, com o filme “Homem com mais de quarenta anos”. Na mesma agência, faria dupla de criação com Francesc Petit e realizou inúmeros trabalhos premiados. A dupla ainda foi responsável pela criação do garoto-propaganda da Bombril, com o ator Carlos Moreno.

Saiu da DPZ para associar-se à agência de publicidade suíça GGK (tornando-se W/GGK), em 1986. Junto com os sócios Gabriel Zellmeister e Javier Llussá Ciuret, passariam a ter o controle total da agência e passaria a ser chamada de W/Brasil. Posteriormente, teria filiais nos Estados Unidos (W/USA), Portugal (W/Portugal) e Espanha (Alta Definición & Washington Olivetto, ou W/Espanha). A W/Brasil se tornaria uma das agências mais premiadas do mundo, com quase 1.000 prêmios, entre Leões no Festival de Cannes, Clio Awards, CCSP e outros. Ganhou 49 leões de Cannes (entre ouro, prata e bronze).

Em 2005, foi lançada a biografia da sua empresa, “Na toca dos leões”, escrita por Fernando Morais, que narra sobre a sua vida e o seu seqüestro, no final de 2001. É diretor de criação e presidente da W/Brasil.

Nota: La primera versión de esta columna fue publicada en la revista brasileña Joyce Pascowitch.

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